Contos Eróticos

A Última Cliente da Noite

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A Última Cliente da Noite

Às vésperas dos 49 anos, depois de dois divórcios e um filho já adulto, uma mulher decide que não vai mais pedir desculpas por querer sentir prazer. Larga o medo, larga a culpa e aceita um convite inesperado de um velho confidente: um drinque no apartamento dele. No alto de um loft com vista panorâmica para a cidade, o que era amizade vira cumplicidade — e ela descobre que recomeçar a vida também é recomeçar a se permitir. Uma história sobre maturidade, desejo e o direito de buscar o deleite no aqui e agora. por YSIS FOX Mulheres maduras sabem que todos os dias pode acontecer uma desgraça. Alguém pode morrer, ser demitido, descobrir uma doença grave, levar um pé na bunda do seu grande amor… Por isso, a felicidade não pode ser algo distante. Temos que buscar o prazer no dia a dia. Taurina, em breve eu completaria 49 anos e não queria mais me desculpar por ser quem sou e fazer o que faço. Divorciada duas vezes, um filho universitário, bem sucedida na profissão, decidi ter menos culpa e mais deleite. Larguei os medos pra lá porque descobri que eles dizem muito mais sobre histórias internas do que um perigo real. Com essa nova mentalidade, deixei meu carro estacionado num lugar escuro da rua e entrei naquele prédio majestoso com autoconfiança. “Inspira, expira”, eu repetia mentalmente. Ele tinha entrado de moto pela garagem e nos encontramos no saguão. Sorridentes, trocamos um selinho na subida do elevador. Daí em diante, nos tornamos cúmplices. Éramos dois desejos saindo do armário, dois adultos querendo brincar. Eu disse “adultos”. Portanto, fosse ele quem fosse, arrependimentos não entrariam no jogo. Descemos no 24º andar. Ele usou a impressão digital para abrir a porta e me pegou pela mão, levando para dentro de seu apartamento. Explorei a decoração primeiro com os olhos. Tons neutros, linhas retas, pé direito alto e sem divisões, ele morava num loft. A iluminação, baixa e indireta, favorecia o encontro a dois. Numa das paredes, um feixe de luz vermelha incidia sobre um quadro com a silhueta de um casal nu se abraçando. Por mais surreal que fosse, eu estava diante de uma vista panorâmica de 180 graus com ele só pra mim. Evitei demonstrar um entusiasmo exagerado e ele me deu uma encoxada por trás. - Sei tanto de você, dos seus amores, desamores, do filho, do trabalho. Agora você vai saber um pouco de mim - falou sem dar voltas. Mexeu nos meus cabelos, beijou meu ombro direito. De fato, ele era meu confidente há anos. Eu, nada sabia de sua vida. Apenas que não competia com fêmea. Pelo contrário, dava corda para ela brilhar. Isso bastava para eu sentir uma certa atração desde quando o conheci. Uma década depois, quando eu começava um capítulo novo da minha vida chamado “Agora é a Minha Vez”, ele me fez o convite-surpresa: “Vamos tomar um drinque lá em casa?”. Minha noite estrelada estava só começando e já tinha sabor de vitória. - Tá vendo aquele clarão? - perguntou apontando o dedo na janela de vidro do piso ao teto. - Impressionante. É um recorte perfeito da tradição paulistana noturna, né.   Pedi um binóculo, ele me trouxe. Os refletores potentes do Jockey Club estavam focados na pista de areia cheia de obstáculos. Era uma prova de hipismo e os cavalos, mesmo à distância, davam um show de potência e elegância. O clarão criava contraste com a mancha escura de um parque ao lado. A cidade ao redor seguia viva, com sua constelação de luzes artificiais dos arranha-céus. Só aquele panorama já valia por um gozo. Apoiei o binóculo sobre a mesa de jantar e ele me segurou pela cintura. Relaxei, colocando as mãos atrás da minha cabeça, abrindo os cotovelos e movendo meus quadris para os lados. Sutilmente, me esfreguei no corpo dele. Eu me sentia poderosa com aquele novo corte de cabelo “tipo Gisele”, com ondas e luzes. Usava vestido envelope azul marinho com sandália de amarração no tornozelo e echarpe no pescoço. “Preciso de uma trilha sonora envolvente”, pensei. O momento era sensorial e nessas horas só funciono com música. Ensaiei uma dança com movimentos sinuosos de ombros para frente e para trás olhando fixamente naquele par de olhos de âmbar. Ele entendeu que eu queria mais que silêncio. Pegou o controle remoto e ligou o som em volume baixinho. A playlist era boa, reforçando o clima natural da nossa aproximação. - Uísque com gelo ou caubói? - Duas pedrinhas, por favor. - Estou feliz porque você veio. - Eu também, nunca esperei que ficaríamos a sós. - Eu sempre quis, mas soube esperar. Não tenho pressa.   Apontando um dos sofás em tom grafite, ele me ofereceu o copo de vidro robusto e sentei de pernas cruzadas. “Inspira, expira”. - Você está linda com essa echarpe. Ela te deixa ainda mais sensual. Posso perguntar onde você comprou só pra disfarçar minha vulnerabilidade? Rimos dessa “vulnerabilidade consciente” e me lembrei na hora da viagem que fiz meses antes: Barcelona, Madri, Sevilha e Marrocos. Foi uma trip marcante. Só lugares quentes para compensar o casamento que tinha esfriado. Durante os passeios, eu e meu ex procurávamos em vão a felicidade do início do namoro. Estímulo visual não faltava. O colorido das especiarias, os tapetes com desenhos geométricos feitos à mão, as cerâmicas e outras riquezas do artesanato de Marrakech aguçavam nossos sentidos. Mas relações longas correm perigo. Elas desgastam. Muitas acabam. No meu caso com o ex, o respeito prevaleceu até o fim. Até o dia em que a casa desmoronou. Tivemos essa benção e seguimos em frente, cada um para o seu lado. Claro que depois da separação, a primeira coisa que eu fiz foi mudar o corte de cabelo. - Comprei essa echarpe em Marrakech, um lugar fenomenal. Conhece? - Já viajei muito pra Ásia, mas do continente africano, só conheço o nordeste. - E eu nunca fui para o Egito, acredita? - Podemos trocar: você me apresenta o Marrocos, eu te apresento o Egito.  Senti que o uísque começava a subir quando ele desenrolou a echarpe do meu pescoço. As mãos dele sempre me impressionaram: ágeis, firmes, talentosas. Naquele momento, eu só queria estar presente. Observá-lo sem ansiedade por outros ângulos, me sentir viva. Então fechei os olhos e o deixei brincar. Pegou a echarpe, cheirou meu perfume impregnado nela e passou a envolver o tecido em meus pulsos. Achei graça de estar sendo “algemada” com uma tira colorida de seda. Respirou fundo, me pegou no colo e, com lenta ousadia, me levou até sua cama. Deitou meu corpo de maneira estratégica, deixando meu bumbum próximo da beirada e minhas pernas soltas no ar. “Inspira, expira”. Deitada sobre a colcha, mãos logo abaixo do umbigo, pedi que tirasse minhas sandálias. Ele obedeceu beijando primeiro meu pescoço, me fazendo contrair os ombros. Beijou, lambeu minha nuca e fui me arrepiando sem poder fazer muita coisa porque estava de mãos atadas. Logo eu, sempre ativa, agora fazia a passiva. Ele se aproveitava de mim e eu deixava. Ser tratada como “frágil” era uma experiência nova pra mim. E foi justamente a sensação de impotência que despertou meu instinto animal. Tirou a camiseta e que delícia de peitoral bronzeado. Também avaliei os braços musculosos, que levaram nota dez. Ou ele nadava ou malhava. Soltou o cinto com fivela metálica de caveira e ficou descalço. Adoro homem descalço, usando só jeans. Com um movimento calculado, ergueu meu vestido até os quadris e me virou de bruços. Daí que minhas mãos, imobilizadas, se encaixaram perfeitamente em mim mesma. Era só querer para eu me dar prazer. Eu quis. Por dentro da minha calcinha, um triângulo preto, minúsculo e transparente, comecei a me masturbar sem repressão interna, outra experiência nova pra mim. Ele gostou e ajudou, passando a mão na minha bunda, e depois a língua. Empolgado, me mordeu de leve e até deu uns tapinhas no estilo mezzo cafajeste, mezzo atrevido. Tudo me excitava. Fiquei ali, gozando de dois estímulos: comigo mesma, pela frente, e com ele, por trás. Quando ele percebeu que eu estava ofegante e perdia os sentidos, pegou o cinto com fivela de caveira e amarrou meus tornozelos. Sem machucar, sem dor, o barato dele e meu era só prazer. Mesmo vestida, eu me sentia nua. Imóvel, quietinha, de bumbum empinado e mãos ainda atadas. A passividade, às vezes, é útil. - Espera aí que eu já volto - avisou. Foi ao toalete e voltou com duas toalhinhas de mão brancas umedecidas com água quente (aquelas típicas de restaurante japonês). Abriu a primeira e começou a esfregar no meu pé direito. Envolveu um dedo por um, passou no calcanhar, na planta e no peito do pé. Com a outra toalhinha ainda quente, repetiu tudo no pé esquerdo. Que sensação deliciosa. A versão masculina da gueixa existe - pelo menos existiu nessa noite pra mim. Enquanto acariciava meus pés eu sentia o corpo relaxar até a nuca. Naquela hora, eu quis a presença física dele dentro mim. Eu queria dar pra ele meus ombros, as costas, os seios, a vagina, a boca, eu toda. Queria dar bem gostoso. Que ele me comesse com os olhos, o garfo, a faca. Da entrada à sobremesa. Quando beijou meus pés repetidamente, um de cada vez, pedi água. Que delícia era aquela? Nunca tinha sido beijada nos pés por ninguém, ainda mais beijos sem pressa “sabor-de-uísque”. Pedi pra beijar minha boca. - Do que você mais gosta no beijo? - De ser surpreendida. Desamarrou meus pulsos e nos deitamos de frente um para o outro. Colou o rosto no meu e, em vez dos lábios, usou os cílios, abrindo e fechando os olhos ao redor da minha boca. Disse que eram “beijos de borboleta”. Aquela sutileza foi um estímulo absurdo. Ele tinha essas coisas etéreas. Usava leveza, delicadeza, tinha uma pegada quase imaterial. Senti cócegas com o toque das asas de borboleta imaginárias e minha pele começou a formigar. Eu não precisava fingir nada. Ele sabia dar a uma mulher o prazer de ser ela mesma. - Entra na minha boca, por favor - pedi em tom de socorro. O beijo dele, de língua, foi longo e molhado. Daqueles de sentir as pernas bambas. Eu estava pronta para ser dominada quando ele foi até o guarda-roupa e trouxe uma venda de veludo cor de vinho. Tapou meus olhos sem perguntar se eu queria. Fiquei no escuro sem dar um pio. - Agora sim, vou entrar na sua boca - falou com voz de sacana. Me pediu para sentar na beirada da cama de olhos vendados e ficou de pé na minha frente. Percebi que tinha aberto o zíper quando me empurrou na direção certa. Com meia sutileza, me ofereceu o seu pau. Qualquer esforço da minha parte foi dispensável porque ele já estava excitado. Toquei-o com as mãos, os lábios, a língua, enfiei tudo na boca e tirei. Várias vezes. Até sentir que ele ia gozar. Parei na hora certa e pedi pra deitarmos de conchinha. - O que mais te dá prazer? - ele me perguntou. - A sensação de estar fazendo algo proibido.   Fizemos de conta que éramos primos e que o sexo rolaria em circunstâncias desfavoráveis. Continuei de calcinha, deixando que ele a abaixasse até meus joelhos para se enfiar dentro de mim com dificuldade. Ele entrou devagar e foi ganhando espaço. “Não podíamos demorar, alguém podia nos flagrar”, pedia a fantasia. Mexi os quadris em sentido horário e anti-horário e aumentei o ritmo enquanto apertava e soltava voluntariamente o pau dele. Foi o suficiente e ele gozou primeiro, nessa penetração. Eu fui depois, com o antebraço dele friccionando o meio das minhas pernas. Eu quis assim e agora sabia pedir. Permanecemos deitados em silêncio durante uns minutos, até a respiração voltar ao normal. Na volta pra casa, tomei banho e escrevi no meu diário: “Hoje eu cumpri minha promessa e tive um momento feliz surpreendente. Com o homem que me faz sentir a mulher mais linda do universo há pelo menos uma década”. Mudei minha rotina e marquei horário fixo: dali em diante, um sábado por mês, quando o salão funcionava até mais tarde por causa das festas e casamentos, eu me tornei sua última cliente da noite. A mulher que ele poderia deixar linda e depois levar para casa. Meu amante agora era o meu hétero e etérico cabeleireiro.   ÓLEO SENSAÇÕES Um óleo. Quatro sensações em camadas — tudo em uma só aplicação. Terpenos, Jambu Amazônico, canela e hortelã pra acender o que a rotina apagou e fazer o corpo lembrar como responder. QUERO SENTIR
Pool party? - Feel

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Pool party?

2 de janeiro. São Paulo. Um calor insuportável. Todos meus amigos viajando, eu não dei sorte na escala de fim de ano. Um sol pra cada um na cidade, ou até mais, já que as ruas tão desertas e não tem uma alma viva por aí. Acordo toda suada. São 7h12 e já tá quase 30 graus. Verifico minha escala, só preciso chegar às 14h. Decido aproveitar que o prédio tá vazio pra tomar um sol e aproveitar a piscina do prédio.
Contos Eróticos da Amahle: Episódio 04 - Não faça barulho

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Contos Eróticos da Amahle: Episódio 04 - Não faça barulho

Entraram no apartamento andando na ponta dos pés e foram direto para o quarto. Amahle tinha um pequeno frigobar que fazia função de mesa de apoio e tirou de lá duas long necks.
Troquei uma DR por DP

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Troquei uma DR por DP

Eu amo homens bissexuais. Mas, não, isso não é uma tara ou algum tipo de fetiche. O que eu gosto é o fato de se aventurarem em dois mundos tão diferentes, aproveitando o melhor de cada. Da aspereza à maciez, da dominação à entrega, da força à gentileza, sabendo que cada um desses aspectos pode vir de qualquer pessoa.
Contos Eróticos da Amahle - Episódio 03: Enfim, a lista - Feel

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Contos Eróticos da Amahle - Episódio 03: Enfim, a lista

Todo mês conheça uma parte da jornada de Amahle, contada e escrita por Monique dos Anjos. Embarque nessa nova série erótica tão deliciosa e tão profunda.
O Barbeiro: Ele me amou por ser livre - Feel

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O Barbeiro: Ele me amou por ser livre

O barbeiro me segurava pelo quadril fazendo por mim o movimento de sobe e desce enquanto eu estimulava minha vulva todinha com uma das mãos. O vidro embaçado, o receio de sermos pegos e o fato dele mandar muito bem fizeram com que gozar fosse inevitável.
Contos Eróticos da Amahle - Episódio 02: Um crime não premeditado

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Contos Eróticos da Amahle - Episódio 02: Um crime não premeditado

Fazia semanas que Amahle havia estado no retiro onde encontrou uma ligação direta com suas maiores fontes de prazer. Perder a hora das reuniões online tinha se tornado rotina, os banhos eram intermináveis e sua casa estava cheia de carregadores. 
O ciborgue que me amava - Feel

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O ciborgue que me amava

“Você chegou ao 307° andar. Bem-vinda à casa, Cassandra”. Ela adorava aquela voz robótica recebendo-a quando finalmente terminava suas horas de trabalho e entrava no seu apartamento. Em sua mente, por trás de cada máquina, de cada ação tecnológica, havia uma forma de inteligência não artificial, mas humana e afetiva. “Prefiro computadores a pessoas”, costumava dizer.
Contos eróticos da Amahle - Episódio 01: A descoberta

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Contos eróticos da Amahle - Episódio 01: A descoberta

Escrito por Monique dos Anjos, escritora de contos eróticos e jornalista.   Episódio 1: A descoberta De Catuaba à Ayahuasca , passando por hipnose e psicanálise, Amahle já havia tentado provavelmente de tudo em busca de um orgasmo. E nem precisaria ser múltiplo, explosivo, úmido. Ela só queria entender o que suas amigas estavam falando quando descreviam a sensação – teoricamente – maravilhosa de perder o controle do corpo todo, sentir espasmos musculares e pequenas descargas elétricas na vulva que as deixavam com uma mistura de exaustão e vigor total ao mesmo tempo.  Portanto não é de se estranhar sua nesse presença retiro de bem-estar sexual com uma dose levemente excessiva de positividade hippie . Enquanto Vica, sua melhor amiga, está despida da cintura para baixo, com um espelho de mão perfeitamente posicionado para que possa conhecer sua zona íntima, Amahle sequer descruzou as pernas.  Decidida a não ser taxada de puritana dentro daquele círculo de mulheres de todas as idades, algumas que poderiam ser sua filha, caso tivesse uma, ou sua mãe e até avó, ela respirou fundo, pensou “dane-se” abrindo-se figura e literalmente para o exercício.  O comando da terapeuta tântrica de braços torneados e uma pele que só poderia ser descrita como feita de chocolate e pó de ouro era simples: conheça seu corpo.  Foi inebriante e encorajador sentir o ambiente ser tomado um pouco um pouco por cheiros cítricos, ora avinagrados, ora com notas florais, que se perdiam em meio ao odor típico de sabonetes íntimos que substituem nosso aroma peculiar por uma versão farmacêutica. Amahle passou a levar a sério a atividade quando, em vez de olhar ao redor, tomou coragem e encarou o espelho.  Se fosse uma preparação psicológica precisa para se enxergar agora diante de uma placa, imagine-o olhando não seu corpo como algo coeso, mas buscando detalhes em sua vulva, seus grandes lábios, clitóris e cavidades? O que viu, porém, a surpreendeu. Percebeu em si uma poesia concreta, daquelas que desmontam palavras e só fazem sentido para quem se empenha em decifra-las. Reconheceu ali, na sua parte mais oculta, formas da natureza que não lembravam nem flor, nem fruta, mas gotas escorridas de uma vela doce e perfumada, que juntas formavam marcadas como a água do rio deixa na areia. No fim da dinâmica, a sensação era de que, venceu o preconceito que ela tinha contra si, não havia mais barreiras para superar. O orgasmo finalmente parecia algo possível.  Quando recebeu a tarefa do dia seguinte: ir para o quarto se masturbar usando o mesmo espelhinho, sentiu que aquele era um jogo ganho. Ledo engano. Foram minutos a fio buscando inspiração, relembrando jogos sexuais, tocando o corpo ora com gentileza, ora com afinco, mas sem nenhum resultado perto do prazer transcendental vendido no folheto do retiro. “Quero meu dinheiro de volta”, pensou.  A última noite, porém, reservaria surpresas que só mesmo o final de uma viagem, quando as expectativas já estão reduzidas a zero, podem proporcionar. Uma desistência a permitiu receber uma massagem para liberação da sua energia sexual. Vica havia avisado que, cansada, não sairia do quarto nem para jantar. Talvez tivesse conhecido alguém, talvez estivesse mesmo cansada... de tanto gozar. Ela era uma dessas amigas competitivas que faria de tudo para tirar nota dez, mesmo que aquilo não fosse um campeonato e que a recompensa fosse puramente interna e subjetiva.  Quem realizaria a massagem seria a professora que conduziu todo curso. “Fico feliz que você tenha vencido mais essa barreira”, disse a Amahle. O quarto em nada lembrava as salas de Spa que ela já havia frequentado. No lugar de uma maca, uma cama box alta, com quatro pilares que sustentavam um tecido de voil, dando a impressão de que estavam em uma tenda em algum lugar perdido do deserto. Velas de todos os formatos e cores se espalhavam junto a pilhas de livros, itens de decoração em madeira e suvenires. A música parecia o som de um murmúrio, o chamado de uma voz feminina que urgia por algo não conquistado. Nada sobre aquele momento seria como qualquer outra experiência que Amahle já havia participado. No lugar de óleos essenciais, lubrificante. Em vez de rolos e ventosas, um singelo vibrador bullet. “Devo tirar a roupa?”, perguntou sem encarar a terapeuta. “Fique como se sentir mais confortável, mas não se esconda atrás de camadas artificiais”, ouviu como resposta. O recado era claro: deixe o pudor – e as roupas – de lado.  Amahle se deitou, nua, exposta, insegura e com os músculos contraídos, esperando qualquer tipo de conversa para quebrar o gelo. No entanto, não havia lugar para encenações. Ao sentir suas pernas sendo abertas gentilmente e uma leve pressão no púbis que a convidava a relaxar o quadril, parou de tentar antecipar o que aconteceria e se rendeu. Sentiu mãos suaves tocarem sua pele dos pés a cabeça sem a intensão de massagear propriamente, mas de estabelecer contato. A sensação de ter a ponta de dedos tão suaves, umedecidos e gentis passando por suas costas e acariciando a nuca era quase vertiginosa.  Sem entender o porquê Amahle começou a chorar. Chorava e ao mesmo tempo se abria mais e mais para tudo o que estava recebendo.  Ao escutar o som suave do vibrador sendo ligado, temeu não estar pronta. Porém, depois de sentir vibrações nos ombros, nas curvas de sua cintura e se arrepiar sentindo seus mamilos serem estimulados, foi ela mesma quem pediu por mais.  “Me diga se a intensidade está boa assim”, ouviu. “Sim”, foi a única palavra que conseguiu pronunciar. A massagista se demorava percorrendo suas virilhas, grandes lábios e passando o vibrador por cima de seus pelos, quase como se não quisesse tocar a pele, até que Amahle sugeriu: “mais”. Simultaneamente, a intensidade aumentou e uma pequena bala tocou a ponta do seu clitóris. Pela primeira vez ela o viu duro, estendido, desejoso de mais contato. Suas pernas eram o mais abertas possíveis, ela gemia ainda que tentava abafar suas reações e se via apertando o bico dos seios enquanto suas quadris se moviam descoordenadamente sob os lençóis. Logo um ponto fez com que o prazer se centralizasse como uma linha de laser que caminha da vulva até seu cérebro, mandando-o entregar todo o que conheceu aquele até momento sobre prazer e satisfação. Percebeu seu corpo tremer, seus pés se curvarem quase como em câimbras e sua barriga contrair até que pedisse clemência. “Se existe um limite para a dor, deve haver também para o prazer”, pensou. Por um segundo achei que iria desfalecer. Mas foi apenas o que algumas pessoas descreveram como ter um orgasmo.  Amahle saiu da sessão sorrindo. Deixou a cama molhada, o constrangimento e a insegurança sobre a capacidade do seu corpo e recebendo prazer atrás de uma porta que não voltaria a abrir.  Na manhã seguinte, enquanto se preparava as malas para conferir uma ideia louca que lhe ocorreu: e se tentasse recuperar os anos perdidos de orgasmos magníficos com namorados que ela julgava incompatíveis? Será que agora ela se sentiu “curada”, eles saberiam fazê-la gozar? Amahle resolveu ir atrás dessa resposta, uma transação após a outra.  Monique dos Anjos é escritora de contos eróticos para mulheres, jornalista e estuda gênero e raça para pesquisas acadêmicas. Além dos trabalhos de escrita, desenvolve palestras sobre letramento racial e equidade de gênero.
Na estrada - Feel

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Na estrada

Abro os olhos com dificuldade, tentando me localizar. O vento que sopra da janela faz meu cabelo se balançar dramaticamente em uma bagunça de liberdade com a estética que, como mulheres, sentimos em poucos momentos de nossa vida. Tanto faz se estou bagunçada – esse movimento, em contraste com o balanço do carro, está uma delícia e alimenta meu espírito de paz. Ao meu lado, minha companheira dirige concentrada, mas curtindo a música, e, se bem a conheço, com essa mesma sensação sem nome que eu sinto agora, de estar em um ponto desconhecido da estrada e de peito aberto para o que vier. 
Aos meus pés - Feel

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Aos meus pés

Sua encomenda chegou dentro do esperado – uma sacola de papel branca com detalhes dourados, que busquei com entusiasmo na portaria,  já acostumada a acolher os recebidos dos meus submissos. Antes de continuar, permita que eu me apresente: sou uma dominadora profissional. Isso significa que homens e mulheres que desejam se submeter a ordens, realizar fetiches e se ajoelhar diante de uma mulher trajada de couro e látex me procuram e me pagam por isso. Do lado de cá, eu me satisfaço com cada gemido por chicote, com cada imagem de um sub ajoelhado que vejo refletida em meu espelho e tenho absoluto tesão em comandar e controlar as expressões de desejo que eles me entregam. 
Duas deusas - Feel

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Duas Deusas

Marcar um dia na semana para transar pode até parecer estranho e automático quando visto de fora. Mas, por aqui, fazíamos dessa uma estratégia incrível para conservar a intimidade e nos prepararmos, criando um contexto entre nós ao longo da semana e da rotina maçante. Era o dia em que incensava a casa, pintava as unhas da cor que ela gostava, trocava os lençóis, fazíamos um café da manhã demorado e criávamos toda uma expectativa para o que havia virado, entre nós, o melhor dia da semana.