A Última Cliente da Noite

A Última Cliente da Noite

por Admin Feel
Às vésperas dos 49 anos, depois de dois divórcios e um filho já adulto, uma mulher decide que não vai mais pedir desculpas por querer sentir prazer. Larga o medo, larga a culpa e aceita um convite inesperado de um velho confidente: um drinque no apartamento dele. No alto de um loft com vista panorâmica para a cidade, o que era amizade vira cumplicidade — e ela descobre que recomeçar a vida também é recomeçar a se permitir. Uma história sobre maturidade, desejo e o direito de buscar o deleite no aqui e agora.

por YSIS FOX


Mulheres maduras sabem que todos os dias pode acontecer uma desgraça. Alguém pode morrer, ser demitido, descobrir uma doença grave, levar um pé na bunda do seu grande amor… Por isso, a felicidade não pode ser algo distante. Temos que buscar o prazer no dia a dia. Taurina, em breve eu completaria 49 anos e não queria mais me desculpar por ser quem sou e fazer o que faço. Divorciada duas vezes, um filho universitário, bem sucedida na profissão, decidi ter menos culpa e mais deleite. Larguei os medos pra lá porque descobri que eles dizem muito mais sobre histórias internas do que um perigo real.

Com essa nova mentalidade, deixei meu carro estacionado num lugar escuro da rua e entrei naquele prédio majestoso com autoconfiança. “Inspira, expira”, eu repetia mentalmente. Ele tinha entrado de moto pela garagem e nos encontramos no saguão. Sorridentes, trocamos um selinho na subida do elevador. Daí em diante, nos tornamos cúmplices. Éramos dois desejos saindo do armário, dois adultos querendo brincar. Eu disse “adultos”. Portanto, fosse ele quem fosse, arrependimentos não entrariam no jogo.

Descemos no 24º andar. Ele usou a impressão digital para abrir a porta e me pegou pela mão, levando para dentro de seu apartamento. Explorei a decoração primeiro com os olhos. Tons neutros, linhas retas, pé direito alto e sem divisões, ele morava num loft. A iluminação, baixa e indireta, favorecia o encontro a dois. Numa das paredes, um feixe de luz vermelha incidia sobre um quadro com a silhueta de um casal nu se abraçando. Por mais surreal que fosse, eu estava diante de uma vista panorâmica de 180 graus com ele só pra mim. Evitei demonstrar um entusiasmo exagerado e ele me deu uma encoxada por trás.

- Sei tanto de você, dos seus amores, desamores, do filho, do trabalho. Agora você vai saber um pouco de mim - falou sem dar voltas.

Mexeu nos meus cabelos, beijou meu ombro direito. De fato, ele era meu confidente há anos. Eu, nada sabia de sua vida. Apenas que não competia com fêmea. Pelo contrário, dava corda para ela brilhar. Isso bastava para eu sentir uma certa atração desde quando o conheci. Uma década depois, quando eu começava um capítulo novo da minha vida chamado “Agora é a Minha Vez”, ele me fez o convite-surpresa: “Vamos tomar um drinque lá em casa?”. Minha noite estrelada estava só começando e já tinha sabor de vitória.

- Tá vendo aquele clarão? - perguntou apontando o dedo na janela de vidro do piso ao teto.

- Impressionante. É um recorte perfeito da tradição paulistana noturna, né.

 

Pedi um binóculo, ele me trouxe. Os refletores potentes do Jockey Club estavam focados na pista de areia cheia de obstáculos. Era uma prova de hipismo e os cavalos, mesmo à distância, davam um show de potência e elegância. O clarão criava contraste com a mancha escura de um parque ao lado. A cidade ao redor seguia viva, com sua constelação de luzes artificiais dos arranha-céus. Só aquele panorama já valia por um gozo.

Apoiei o binóculo sobre a mesa de jantar e ele me segurou pela cintura. Relaxei, colocando as mãos atrás da minha cabeça, abrindo os cotovelos e movendo meus quadris para os lados. Sutilmente, me esfreguei no corpo dele. Eu me sentia poderosa com aquele novo corte de cabelo “tipo Gisele”, com ondas e luzes. Usava vestido envelope azul marinho com sandália de amarração no tornozelo e echarpe no pescoço.

“Preciso de uma trilha sonora envolvente”, pensei. O momento era sensorial e nessas horas só funciono com música. Ensaiei uma dança com movimentos sinuosos de ombros para frente e para trás olhando fixamente naquele par de olhos de âmbar. Ele entendeu que eu queria mais que silêncio. Pegou o controle remoto e ligou o som em volume baixinho. A playlist era boa, reforçando o clima natural da nossa aproximação.

- Uísque com gelo ou caubói?

- Duas pedrinhas, por favor.

- Estou feliz porque você veio.

- Eu também, nunca esperei que ficaríamos a sós.

- Eu sempre quis, mas soube esperar. Não tenho pressa.

 

Apontando um dos sofás em tom grafite, ele me ofereceu o copo de vidro robusto e sentei de pernas cruzadas. “Inspira, expira”.

- Você está linda com essa echarpe. Ela te deixa ainda mais sensual. Posso perguntar onde você comprou só pra disfarçar minha vulnerabilidade?

Rimos dessa “vulnerabilidade consciente” e me lembrei na hora da viagem que fiz meses antes: Barcelona, Madri, Sevilha e Marrocos. Foi uma trip marcante. Só lugares quentes para compensar o casamento que tinha esfriado. Durante os passeios, eu e meu ex procurávamos em vão a felicidade do início do namoro. Estímulo visual não faltava.

O colorido das especiarias, os tapetes com desenhos geométricos feitos à mão, as cerâmicas e outras riquezas do artesanato de Marrakech aguçavam nossos sentidos. Mas relações longas correm perigo. Elas desgastam. Muitas acabam. No meu caso com o ex, o respeito prevaleceu até o fim. Até o dia em que a casa desmoronou. Tivemos essa benção e seguimos em frente, cada um para o seu lado. Claro que depois da separação, a primeira coisa que eu fiz foi mudar o corte de cabelo.

- Comprei essa echarpe em Marrakech, um lugar fenomenal. Conhece?

- Já viajei muito pra Ásia, mas do continente africano, só conheço o nordeste.

- E eu nunca fui para o Egito, acredita?

- Podemos trocar: você me apresenta o Marrocos, eu te apresento o Egito. 

Senti que o uísque começava a subir quando ele desenrolou a echarpe do meu pescoço. As mãos dele sempre me impressionaram: ágeis, firmes, talentosas. Naquele momento, eu só queria estar presente. Observá-lo sem ansiedade por outros ângulos, me sentir viva. Então fechei os olhos e o deixei brincar. Pegou a echarpe, cheirou meu perfume impregnado nela e passou a envolver o tecido em meus pulsos. Achei graça de estar sendo “algemada” com uma tira colorida de seda. Respirou fundo, me pegou no colo e, com lenta ousadia, me levou até sua cama. Deitou meu corpo de maneira estratégica, deixando meu bumbum próximo da beirada e minhas pernas soltas no ar. “Inspira, expira”.

Deitada sobre a colcha, mãos logo abaixo do umbigo, pedi que tirasse minhas sandálias. Ele obedeceu beijando primeiro meu pescoço, me fazendo contrair os ombros. Beijou, lambeu minha nuca e fui me arrepiando sem poder fazer muita coisa porque estava de mãos atadas. Logo eu, sempre ativa, agora fazia a passiva. Ele se aproveitava de mim e eu deixava. Ser tratada como “frágil” era uma experiência nova pra mim. E foi justamente a sensação de impotência que despertou meu instinto animal.

Tirou a camiseta e que delícia de peitoral bronzeado. Também avaliei os braços musculosos, que levaram nota dez. Ou ele nadava ou malhava. Soltou o cinto com fivela metálica de caveira e ficou descalço. Adoro homem descalço, usando só jeans.

Com um movimento calculado, ergueu meu vestido até os quadris e me virou de bruços. Daí que minhas mãos, imobilizadas, se encaixaram perfeitamente em mim mesma. Era só querer para eu me dar prazer. Eu quis. Por dentro da minha calcinha, um triângulo preto, minúsculo e transparente, comecei a me masturbar sem repressão interna, outra experiência nova pra mim. Ele gostou e ajudou, passando a mão na minha bunda, e depois a língua. Empolgado, me mordeu de leve e até deu uns tapinhas no estilo mezzo cafajeste, mezzo atrevido. Tudo me excitava. Fiquei ali, gozando de dois estímulos: comigo mesma, pela frente, e com ele, por trás.

Quando ele percebeu que eu estava ofegante e perdia os sentidos, pegou o cinto com fivela de caveira e amarrou meus tornozelos. Sem machucar, sem dor, o barato dele e meu era só prazer. Mesmo vestida, eu me sentia nua. Imóvel, quietinha, de bumbum empinado e mãos ainda atadas. A passividade, às vezes, é útil.

Espera aí que eu já volto - avisou.

Foi ao toalete e voltou com duas toalhinhas de mão brancas umedecidas com água quente (aquelas típicas de restaurante japonês). Abriu a primeira e começou a esfregar no meu pé direito. Envolveu um dedo por um, passou no calcanhar, na planta e no peito do pé. Com a outra toalhinha ainda quente, repetiu tudo no pé esquerdo. Que sensação deliciosa. A versão masculina da gueixa existe - pelo menos existiu nessa noite pra mim.

Enquanto acariciava meus pés eu sentia o corpo relaxar até a nuca. Naquela hora, eu quis a presença física dele dentro mim. Eu queria dar pra ele meus ombros, as costas, os seios, a vagina, a boca, eu toda. Queria dar bem gostoso. Que ele me comesse com os olhos, o garfo, a faca. Da entrada à sobremesa. Quando beijou meus pés repetidamente, um de cada vez, pedi água. Que delícia era aquela? Nunca tinha sido beijada nos pés por ninguém, ainda mais beijos sem pressa “sabor-de-uísque”. Pedi pra beijar minha boca.

- Do que você mais gosta no beijo?

- De ser surpreendida.

Desamarrou meus pulsos e nos deitamos de frente um para o outro. Colou o rosto no meu e, em vez dos lábios, usou os cílios, abrindo e fechando os olhos ao redor da minha boca. Disse que eram “beijos de borboleta”. Aquela sutileza foi um estímulo absurdo. Ele tinha essas coisas etéreas. Usava leveza, delicadeza, tinha uma pegada quase imaterial. Senti cócegas com o toque das asas de borboleta imaginárias e minha pele começou a formigar. Eu não precisava fingir nada. Ele sabia dar a uma mulher o prazer de ser ela mesma.

- Entra na minha boca, por favor - pedi em tom de socorro.

O beijo dele, de língua, foi longo e molhado. Daqueles de sentir as pernas bambas. Eu estava pronta para ser dominada quando ele foi até o guarda-roupa e trouxe uma venda de veludo cor de vinho. Tapou meus olhos sem perguntar se eu queria. Fiquei no escuro sem dar um pio.

- Agora sim, vou entrar na sua boca - falou com voz de sacana.

Me pediu para sentar na beirada da cama de olhos vendados e ficou de pé na minha frente. Percebi que tinha aberto o zíper quando me empurrou na direção certa. Com meia sutileza, me ofereceu o seu pau. Qualquer esforço da minha parte foi dispensável porque ele já estava excitado. Toquei-o com as mãos, os lábios, a língua, enfiei tudo na boca e tirei. Várias vezes. Até sentir que ele ia gozar. Parei na hora certa e pedi pra deitarmos de conchinha.

- O que mais te dá prazer? - ele me perguntou.

- A sensação de estar fazendo algo proibido.

 

Fizemos de conta que éramos primos e que o sexo rolaria em circunstâncias desfavoráveis. Continuei de calcinha, deixando que ele a abaixasse até meus joelhos para se enfiar dentro de mim com dificuldade. Ele entrou devagar e foi ganhando espaço. “Não podíamos demorar, alguém podia nos flagrar”, pedia a fantasia. Mexi os quadris em sentido horário e anti-horário e aumentei o ritmo enquanto apertava e soltava voluntariamente o pau dele. Foi o suficiente e ele gozou primeiro, nessa penetração. Eu fui depois, com o antebraço dele friccionando o meio das minhas pernas. Eu quis assim e agora sabia pedir.

Permanecemos deitados em silêncio durante uns minutos, até a respiração voltar ao normal. Na volta pra casa, tomei banho e escrevi no meu diário: “Hoje eu cumpri minha promessa e tive um momento feliz surpreendente. Com o homem que me faz sentir a mulher mais linda do universo há pelo menos uma década”.

Mudei minha rotina e marquei horário fixo: dali em diante, um sábado por mês, quando o salão funcionava até mais tarde por causa das festas e casamentos, eu me tornei sua última cliente da noite. A mulher que ele poderia deixar linda e depois levar para casa. Meu amante agora era o meu hétero e etérico cabeleireiro.

 

ÓLEO SENSAÇÕES

Um óleo. Quatro sensações em camadas — tudo em uma só aplicação. Terpenos, Jambu Amazônico, canela e hortelã pra acender o que a rotina apagou e fazer o corpo lembrar como responder.

QUERO SENTIR