por YSIS FOX
A superfície do mar refletia a lua cheia como um espelho. Nem rock, flamenco ou jazz. Na praia deserta, Isadora dançava ao redor da fogueira a música do silêncio, que só tocava na sua cabeça. No ambiente, o som acústico era o crepitar da madeira em faíscas, o vento balançando as folhas das árvores, o vai-e-vem das ondas de águas rasas. Em conexão íntima com a natureza, o corpo dela era um altar em movimento. Uma oferenda sagrada. Diante do fogo, a dançarina transformava a solidão do isolamento na solitude da autonomia emocional. Os passos na pontinha dos pés alimentavam também uma fogueira dentro dela. Tinha tanto calor humano que era capaz de derreter até um iglu no Alasca.
Mas seu fogo interno, desta vez, não se manifestava para o sexo. Ele emergia para purificar a raiva, afastar a tristeza, aliviar a dor. Meses antes, Isadora tinha levado cartão vermelho no relacionamento feliz que viveu por sete anos. Ela e o ex tinham se conhecido no trabalho. Casaram no cartório e na igreja. Mudaram de país. Retornaram. Compraram apartamento. De repente, sem explicação, surgiu o pedido de divórcio. O laço amoroso dele tinha sido desfeito em sigilo. Os planos de maternidade dela desabaram. Para reconstruir a vida sentimental, ela precisava deixar morrer todas as suas versões anteriores e ressuscitar - como fênix ressurge das cinzas. Tirou um semestre sabático e foi para Itacaré, na Bahia.
Para ela, não havia nada de errado em ficar triste depois de uma separação - as pessoas é que cobravam demais a superação. Mas sofrimento maior, em seu coração, era ser obrigada a sorrir 24 horas por dia. “Não é proibido ficar triste”, queria escrever numa placa e pendurar no pescoço. Ainda na infância, quando enfrentou a separação dos pais, Isadora aprendeu que a dor tem seu tempo e, um dia, passa. Quem negasse isso perdia a chance de tirar uma lição da tristeza. “As lágrimas são feitas de água salgada como o mar”, vivia dizendo uma amiga. “Chorar é como tomar um banho de mar de dentro pra fora”.
Agora o mar era sua única platéia enquanto enxugava as lágrimas. “A ferida cicatriza”, impunha a si mesma. Exibindo o corpo para a luz amarela-alaranjada com jogo de cintura, expurgava os últimos resquícios do choque pelo divórcio. Sua dança ritualística tinha poder terapêutico porque escolheu a cura em vez da amargura. Fechou os olhos para sentir a brisa tocando seu rosto e criou uma cena inspiradora. Parecia um quadro taitiano de Gauguin: reunia a solidez da terra, a fluidez da água, a liberdade do ar, a paixão do fogo e o mistério do espírito. Mateus a viu de longe e se aproximou, atraído pelo corpo de músculos definidos e a magia dos gestos. Mas quem saudou Isadora primeiro foi seu cão.
- Desculpa o jeito intrusivo do Mat, ele é carente.
- Nossa, nem vi vocês, estava concentrada - ela respondeu fazendo carinho no labrador. - Vem cá, lindão.
- Te vi de longe e achei um desperdício assistir a esse espetáculo de graça e sozinho. Vim perguntar se você aceita couvert artístico - Mateus brincou.
- Imagina, só danço por diversão. Estava cuidando da fogueira pra ela não perder força e apagar - ela soprou as brasas.
- Então esse fogo tem dono?
- Mais ou menos - levantou os olhos, o brilho das chamas refletido na íris. - Vai ter um luau aqui hoje. Vim ajudar uns amigos nos preparativos e resolvi ficar um pouco mais. A festa começa às nove. Você vem?
- Não fui convidado - ele riu.
- Está sendo agora.
- Seu nome é…
- Isadora.
- Prazer, Mateus.
Às 11h da noite, ele chegou sozinho no luau. Isadora tomava cerveja com os amigos sentada num tronco. Sua pele bronzeada reluzia sob a luz quente das labaredas. Usava um vestido de crochê nude com top de amarração no pescoço, cabelos soltos e pouquíssima maquiagem. Sua beleza era natural. Recebeu Mateus com um beijinho no rosto.
- Você veio - ela piscou.
- Preciso mostrar o convite ou confia em mim?
- Confio no destino - ela riu, sacudindo a areia dos pés. Toma cerveja ou caipirinha?
- Hum, tô com sede. Vou querer água de coco.
- Eu te acompanho. Tá aqui de férias?
- É, eu fugi do mundo por um tempo.
A água de coco descia redondinha e foram sentar no sofá do lounge. Isadora reparou que o moreno lindo de barba cerrada usava corrente de prata com a medalha de Nossa Senhora. Mateus fixou o olhar nos pés dela, que desenhavam formas geométricas na areia. Contou que ficaria uma semana por ali para se desestressar. Economista, ele trabalhava no mercado financeiro. Sua rotina de alerta contínuo e pressão por resultados clamava por uma trégua. Psicóloga de formação, ela disse que começou a trabalhar muito cedo em agência e foi ficando, até se tornar diretora de filmes publicitários.
- Também vim pra cá por causa de uma crise nervosa, Mateus. Tirei um semestre pra me cuidar - ela se abriu.
- Esse lugar é perfeito para esquecer problemas.
- O sofrimento não vem da ferida, mas da nossa mania de nos agarrarmos a ela. Você conhece essa lição do budismo?
- Não, mas concordo: aprender a soltar é importante.
- Cheguei faz três meses. Precisei desse tempo porque meu casamento acabou.
- Que coincidência! Quer dizer, poxa, sinto muito.
- Acontece - ela disse abaixando o olhar.
- Sabia que... Bom, é melhor te ouvir, depois eu falo.
- Nossa, estão me chamando, tenho que ir!
- Hã? Ir pra onde?
Isadora levantou apressada quando um grupo de rapazes chegou na festa trazendo um argelino que tocava derbak, instrumento de percussão conhecido como atabaque árabe. Seguiu até o balcão de bebidas onde um garçom tinha guardado seu lenço vermelho de quadril e um véu esvoaçante. Estava combinado: se o músico viesse, ela honraria o sangue árabe e os anos que praticou dança do ventre na juventude. Mateus a observava do sofá.
O som vibrante do derbak invadiu o luau abrindo passagem como um visitante ilustre. Isadora pegou o copo de tequila de uma amiga, lambeu o sal da borda, tomou o shot de uma vez e chupou o limão. Amarrou o lenço na cintura e cobriu a cabeça com o véu, deixando só os olhos amendoados à mostra, em clima de mistério. Ao seu lado, invisível aos olhos dos demais, Esmeralda, a cigana de olhar oblíquo, sorriu e fez um aceno quase imperceptível com a mão - cumplicidade que ninguém precisava entender. Os dedos rápidos do músico deram golpes no derbak emitindo sons graves (dum) e agudos (ta/ka). Isadora encarou a plateia com olhar penetrante. Seu corpo era a extensão do instrumento.
Executando marcações, vibrações e ondulações, ela tinha sensualidade contagiante. Num deslocamento ao redor da fogueira, suas mãos dançavam em parceria com as labaredas. Os quadris soltos pareciam voar chacoalhando as moedas que tilintavam com o movimento sinuoso das ancas. A finalização da performance foi o ápice da carga erótica do show, quando músico e dançarina sincronizaram sons e gestos num diálogo íntimo. No grand finale, Isadora tremeu o corpo freneticamente como se estivesse expulsando maus espíritos e limpando a alma de toda tristeza. Foi uma catarse também para o público.
Com um gesto singelo de agradecimento, a dupla recebeu os aplausos. Isadora exalava seu magnetismo ao lado do argelino, ambos sorriam para a plateia. Morrendo de calor, ela saiu da roda na direção de Mateus e a festa seguiu no ritmo “pegando fogo”. Mateus, felizmente, sabia qual era o melhor extintor para aquele tipo de incêndio.
- Preciso me refrescar - ela disse quase sem fôlego.
- Fiquei hipnotizado com a sua dança - disse segurando na cintura dela com discrição.
- O som do derbak ativa forças ancestrais, né. Agora topa um drinque? - perguntou sentindo os dedos dele tocando na sua pele.
- Claro. Caipirinha?
- Sim, tô suando e queria alguma coisa com sabor suave e adocicado. Depois a gente pode molhar os pés ali no rasinho - apontou para as ondas.
Descalços, tomaram caipirinha de pitaya com limão siciliano caminhando na espuma do mar. Pisaram devagar na areia molhada, sentiram a temperatura da água, relaxaram aos poucos, sem a força da correnteza. Mateus puxou assunto e foi claro ao confessar que sua crise de estresse não era profissional, mas emocional. Contou que também havia encerrado um relacionamento sério, mas sua história tinha como agravante o vexame público.
- Fui abandonado no altar pela pessoa que considerava a mulher da minha vida, Isadora. É a maior humilhação que um ser humano pode sofrer.
- Meu Deus, isso ainda acontece? Deixar alguém sozinho no altar é cruel, uma baita covardia - ela julgou. - Quer dizer que levamos um pé na bunda ao mesmo tempo?
- É, mas não acredito em coincidências. Pra mim é tudo sincronicidade.
- Atá, você acha que fomos colocados aqui, os dois recém-separados e abandonados pelos seus grandes amores, por algum motivo especial? - ela sorriu maliciosa.
- Talvez o destino.
Ficaram um tempo em silêncio, observando o mar. Antes que seu copo esvaziasse, Mateus segurou o braço de Isadora e tentou um beijo. Ela recuou, “estamos fechados para reforma”, alegou. Ele insistiu, argumentando que não iam fazer nada proibido. Segurou nos pulsos dela para medir os batimentos cardíacos. Estavam acelerados, sinal claro de disponibilidade. Encostou de novo os lábios em sua boca e sentiu que ela queria beijar, mas reprimia o desejo em respeito às perdas afetivas de ambos. Então, por instinto animal, em vez de um beijo ardente Mateus arriscou vários selinhos - expressando carinho ao invés de volúpia. Funcionou. Isadora soltou a musculatura, saiu da postura de defesa e cedeu.
Continua...
ÓLEO SENSAÇÕES
Um óleo. Quatro sensações em camadas — tudo em uma só aplicação. Terpenos, Jambu Amazônico, canela e hortelã pra acender o que a rotina apagou e fazer o corpo lembrar como responder.
QUERO SENTIR

