Uma crônica sobre desejo, coragem e o instante em que dois estranhos decidem ficar.
por Loren Kaíza
Você chegou pedindo um isqueiro por entre bailados, braços e quadris de uma roda de salsa cumbieira, e, mais do que seu cigarro, mais do que uma chama por entre seus dedos, acendi uma fagulha aí, nesse par de olhos – ou será que já não havia acendido ao longe?
Minha mão mal tocou a sua pegando o isqueiro de volta e eu notei dedos e punhos, pelos e antebraço, e, com os olhos fui subindo e encarando o que houvesse pelo caminho: a camisa de flanela meio aberta, o peito meio à mostra, a barba meio branca e o cabelo meio preso, me deixando assim meio com vontade de saber como era seu corpo nu.
Engatou uma conversa sobre comercialização da música latina, Shakira, Bad Bunny e Rosalía, queria me convencer que Carlos Puebla e Buena Vista sim, eram tradicionais – e como discordar? Deixei que falasse um tanto, atenta ao seu sotaque e, cansada de observar, movida por um impulso de quem encontrou o que queria por entre tantos outros olhares, te chamei pra dançar, primeiro com o corpo, que foi se movendo com a música em meio à conversa, enquanto ainda falava sem parar, tentando te silenciar com o movimento dos meus quadris. E você continuou entrando na minha, me segurou de leve pelas mãos e foi acertando o passo no fogo imaginário que brotava da música e seguia, em nossa direção. Pouco a pouco fui tirando casaco e lenço, escolhidos para aplacar o frio do mês de junho à beira mar. Era o movimento me esquentando, ou a sua proximidade?
Nossos passos encontraram um ritmo comum e se encaixaram. Você, familiar com a rumba. Eu, pegando o fio da meada pelo costume com o forró. Foi aí que, de repente, de tanto os quadris se seguirem, falávamos a mesma língua, sincronizados. E aconteceu então o encaixe inevitável, a fagulha que faltava para seguirmos para o ponto em que eu queria desde que pus os olhos em você: um beijo.
Senti todo o entorno se dissolver e foi como se restassem apenas nós. Com a ponta dos dedos você foi passeando pelas minhas costas e subindo pelos cabelos, fazendo com que o contraste do suor da nuca com o vento frio da noite levantasse um arrepio. Já com a outra mão, você me agarrou pela cintura, me levando pra mais perto e colando nossas coxas, num movimento cada vez mais intenso, buscando no roçar da pele todo o prazer que houvesse pelo caminho.
Um riso frouxo de satisfação me invadiu quando senti o volume que surgia da sua virilha e você percebeu, mas tentou disfarçar. E nessa hora, por praga ou providência dos deuses anti voyeuristas, o ritmo da música mudou, ficando mais animado, nos deixando feito gato e rato, acumulando uma tensão que precisava desaguar. Só pra te provocar me afastei, balançando a saia com as mãos, subindo de leve deixando as coxas à mostra e te fazendo vontade. E pra seguir com esse clima e me espezinhar, você também se exibiu ali na minha frente, terminando de tirar a camisa e deixando o peito à mostra. Se alguém me contasse de um par assim eu ia querer assistir a tudo, ser expectadora dessa situação. Por isso sigo, escrevendo pra ficar na sua memória e fixar na minha sim, cada pedaço dessa noite.
Quando nos reaproximamos com a dança (você sem camisa e eu com a saia presa nos quadris), nenhuma dúvida restava do nosso próximo passo: você me sussurrou alguma coisa em espanhol, que naquele momento me soou a coisa mais sexy do mundo, e me puxou pela mão, com uma urgência que agora também era minha. Passamos pelo caminho iluminado de tochas ao lado do quiosque e fomos para a parte de trás, numa varanda que dava direto para o mar. Respirei fundo como quem estivesse criando coragem para um mergulho, mas você, sem cerimônia nenhuma e como se visitasse um lugar já conhecido, se meteu por entre minhas pernas, por debaixo da minha saia — foi seu o mergulho, o salto certeiro, o próximo passo: eu estava completamente excitada.
Sua falta de cerimônia pra cair de boca, sempre ela, me fazendo ficar com ainda mais tesão, perder mais fácil a razão, me entregar!
Me segurou pelos quadris enquanto passeava com a língua pela minha boceta e eu rebolei o tanto que pude, como se ainda dançássemos – e quem disse que assim não era? A música chegava em ondas pela madeira da cabana, se misturava ao barulho do mar e esqueci do tempo lá fora, das pessoas próximas, de qualquer outro ponto além daquele em que sua boca insistia. Foi aí que eu gozei num urro/risada que subiu do meu ventre feito uma serpente, disparando junto meu coração.
De longe, alguém gargalhou. A tocha mais próxima chacoalhou com o vento. A música continuava, assim como as ondas quebrando na praia, e todo um mundo ao redor, que havia sido suspenso, retomava seu curso. Guardamos juntos o segredo do que houve nessa noite e o primeiro sim que demos um ao outro: dois estranhos que escolheram enxergar um no outro um lugar que valia a pena chegar, se demorar, ficar.
Loren Kaíza
ÓLEO SENSAÇÕES
Um óleo. Quatro sensações em camadas — tudo em uma só aplicação. Terpenos, Jambu Amazônico, canela e hortelã pra acender o que a rotina apagou e fazer o corpo lembrar como responder.
QUERO SENTIR
