Alice é uma jovem bonita, inteligente e herdeira de uma família bilionária que, apesar de viver intensamente a juventude e variar de parceiros, nunca consegue chegar ao orgasmo com ninguém além de si mesma — um bloqueio que a deixa dividida entre o desejo (Eros) e uma sensação de pequena morte (Thanatos). Recém-formada, vai trabalhar com o pai, ganha independência, muda-se sozinha, mas segue empurrando a insatisfação sexual para debaixo do tapete, sonhando que alguém faça "a mágica" por ela. A virada vem ao ler uma sexóloga francesa afirmando que o orgasmo não se tem, se aprende a se permitir ter — e Alice adota o mantra "eu me permito sentir prazer", decidida a sair do "país das maravilhas" rumo à vida adulta. É justo quando muda essa chave interna que o destino age: na festa de 40 anos da empresa do pai, deslumbrante em vestido marsala e gargantilha hasli, ela esbarra em Andrei, um engenheiro naval gaúcho de olhos cinza-azulados, e os dois sentem na hora que ali há algo de mágico no ar.
por YSIS FOX
Quando tinha 20 aninhos e beleza indomada, Alice gostava de variar de parceiros na cama, mas nunca chegava ao orgasmo com ninguém que não fosse ela mesma. O rapaz podia ser um artista nas preliminares. Ela ficava molhadinha, ardendo de vontade. Mas carícias, beijos, dedos, língua, nada a levava ao clímax. Cada vez que seu corpo refugava, a potranca sentia uma espécie de luto. Dividida entre Eros e Thanatos, personificações do desejo e da morte na mitologia grega, a garota mais sexy da faculdade de Administração administrava pessimamente seus dotes naturais. Recorria aos brinquedos ou travesseiros. Quando lembra das transas de sua juventude, hoje a morena de olhos verdes ri.
- Relaxa, comigo você vai conseguir - os rapazes prometiam, um idêntico ao outro.
Felizmente, ela tinha outros prazeres na vida, como qualquer mortal. Tomar sol, jogar basquete, meditar, viajar, contemplar a natureza ou ir pra balada com as amigas.
- O pôr do sol em Santorini é uma obra de Deus, mas nem tudo é perfeito nesse mundo, querida. Você tem QI acima da média, é linda, podre de rica e ainda quer gozar? - as amigas zoavam.
Sim, ela queria. Why not? Alegre, extrovertida, boa de copo e de bunda (redondinha, lisinha, sem uma estria sequer), o fato de não atingir o orgasmo só servia para derrubar a crença de que o dinheiro elimina problemas. “Se fortunas blindassem o coração humano, a princesa Diana não teria sido infeliz no casamento de conto de fadas”, retrucava, quando as amigas insistiam que ela era uma “pobre menina rica”.
Recém-formada, Alice foi trabalhar com o pai, empresário do ramo de mineração e indústria naval. O bilionário sossegou: seu patrimônio finalmente estava em boas mãos. E ainda teria netos, acreditava. Mas Alice canalizava sua energia para construir uma carreira sólida - não para casar. Competente, ganhou posição de destaque no grupo. Orgulhosa de ganhar seu dinheiro, trocou de carro e, meses depois, decidiu morar sozinha.
- Mas você ainda nem casou, sequer tem namorado - o pai protestou.
- Já fiz a faculdade que você sonhou pra mim e trabalho onde você desejou, agora me deixe viver a minha vida, papai - ela reagiu com força de leoa.
O bate boca terminou como sempre, quase empatado: Alice foi embora, mas optou por uma cobertura próxima da casa de sua família - onde passou a dar festinhas animadas. Sua insatisfação sexual? Ela jogava debaixo do tapete. Como toda pessoa romântica, sonhava encontrar alguém que fizesse “a mágica’”. Até o dia que descobriu que a feiticeira deveria ser ela mesma. Foi quando leu numa revista feminista: “Um orgasmo não se tem, se aprende a tê-lo. Ou melhor, se aprende a se permitir tê-lo”, dizia a sexóloga francesa Anaïs Fournier, numa reportagem intitulada Muito Além do Óbvio: Quando o Corpo Feminino Assume o Comando. Aquela verdade universal foi um tapa na cara.
Decidida a se mudar “do país das maravilhas”, terra da inocência e juventude, para a vida adulta, Alice criou um mantra: “Eu me permito sentir prazer”. Na prática, a garota que tinha vencido um vestibular disputadíssimo na universidade mais conceituada do país agora era a mulher que tentaria resolver seu bloqueio sexual com a cabeça, como no xadrez: adversidade, estratégia, visão antecipada mas, em vez de controle, descontrole emocional.
Foi só Alice alterar o padrão mental que o destino fez a sua parte: na festa de 40 anos do grupo empresarial de seu pai, depois de tê-lo “matado” internamente saindo de casa, Andrei surgiu em sua vida. No evento de gala, a herdeira usava um vestido sem alças em tom marsala e o hasli que o pai havia lhe dado de presente de formatura - uma gargantilha rígida que acompanha a curvatura do pescoço. Ela percebia que atraía olhares no meio daquela profusão de paletós e gravatas com a belíssima jóia. Mas pouco ligava para a ostentação, as conversas superficiais, os negócios. Na festa, só queria renascer.
O brinde à empresa foi erguido com champanhe francês quando Andrei despontou no salão segurando uma taça. Ao trombar com Alice, tiveram a mesma impressão de magia no ar: “Já nos conhecemos?”. A celebração estava no auge e se apresentaram.
- Prazer, Andrei - ele disse com voz de veludo.
- Alice - ela estendeu a mão.
O gaúcho de 30 anos preferiu cumprimentá-la com um beijinho no rosto. Moreno, cheiroso, ele tinha traços italianos e olhos penetrantes de tom cinza-azulado.
- Impressão minha ou você está meio desconfortável nesse salão efervescente? - Alice quebrou o gelo.
- Acertou. Pareço um peixe fora d’água porque sou um engenheiro naval em terra firme - ele riu. - Mas você também parece um pouco deslocada.
- Deve ser porque sou a filha do anfitrião, trabalho com ele e essa comemoração tem um peso que, às vezes, fica difícil suportar - admitiu.
- Explica melhor, não sei se eu entendi.
- Vamos pegar outro drinque?
De taças cheias, o álcool subindo à cabeça, Alice ficou à vontade diante do crush gentil, estável, presente. E resolveu transformar segredos do baú em confidências.
- Sou administradora de empresas, mas só fiz esse curso para atender a vontade do meu pai - confessou com a voz meio pastosa, revelando uma leve embriaguez. - Meu maior sonho era ter estudado Antropologia ou História da Arte.
- E eu sou um engenheiro naval de segunda - Andrei rebateu.
- Categoria?
- Não, de segunda geração - ele riu. - Meu pai também é engenheiro naval, mas não fiz nada forçado. Fiz porque quis.
- Temos histórias bem diferentes.
- Um ótimo pretexto para nos aproximar.
Na despedida da festa, deram um selinho e marcaram o encontro seguinte num bar descolado. Agora estavam à sós. Vestidos com menos formalidade, poderiam se conhecer melhor. Um relógio preto chamava a atenção para a cicatriz que Alice achou sexy na mão esquerda dele. Parecia um corte de vidro. Teria sido uma briga? Pediram vinho e petiscos.
A conversa animada logo rendeu o primeiro beijo. Quente, demorado, ele desarmou o gatilho do medo de um novo relacionamento. Andrei já confiava nela, contando histórias íntimas de vitórias e fracassos amorosos. Ela, por sua vez, não se sentia mais desfilando com um gato para alimentar o ego, mas descobrindo um ser especial. Finalizaram a noite embriagados num motel luxuoso dormindo de conchinha - e roupa. Acordaram quando o sol raiava. Andrei deixou Alice em casa e foi embora com um bilhete escondido no bolso traseiro da sua calça. Em casa, ele achou o papelzinho dobrado e leu:
Muso inspirador,
Nunca dormi com ninguém sem transar.
Foi um orgasmo incrível.
Alice
No terceiro encontro, a intimidade cresceu. Alice convidou Andrei para conhecer seu duplex. Encomendou um jantar italiano caprichado; ele levou de presente um tsuru, dobradura japonesa em formato de ave feita por suas próprias mãos. Era branco.
- Que delicado. O que significa?
- Ah, é um símbolo da cultura oriental de paz, longevidade, desejo sincero... Fiz pra você, pra dizer que eu quero cuidar do que está nascendo entre nós.
Andrei aceitou uísque enquanto ela terminava de secar os cabelos. Quando voltou, linda e perfumada, ele ficou no sofá de perna cruzada formando um quatro, admirando-a por uns segundos. Ela sentou em seu colo; ele apoiou o copo de uísque no chão. Só se olhavam. Alice molhou os lábios com a língua e, admirando seus belos olhos verdes, Andrei a puxou pela nuca. Engoliu sua boca e ela pendeu a cabeça para trás. O beijo dele alternava dois movimentos: penetrar a língua cada vez mais fundo e recuar, mordiscando os lábios dela. Alice teve sua primeira noite de sexo do bom e do melhor: com amor.
O abraço forte e envolvente de Andrei dizia “estou aqui com você”. Transmitia confiança e permitiu que Alice se entregasse física e espiritualmente. Sentiu falta de ar.
- Seu abraço me deu calor.
- Quer ligar o ar-condicionado?
- Não, quero tirar a roupa.
Tirou peça por peça ouvindo Sexual Healing do Marvin Gaye mentalmente. Dançou fazendo o melhor strip-tease da sua vida: sem música, botou pra fora todo o erotismo reprimido disfarçado de altruísmo. Andrei sentiu o pau ficando duro dentro da boxer preta. Seus olhos faiscavam, mas se manteve comportado como espectador. Nua na sala, Alice molhava os dedos na língua e acariciava o bico dos seios. Ou enfiava entre as pernas. Foram abraçados para o quarto, ela pelada, ele de roupa dando tapinhas em sua bunda.
Nessa transa Alice descobriu sua “emoção preferida”: sentir-se segura nas mãos de um homem, sendo comida por trás e estimulada na frente - por ele ou por ela mesma, tanto fazia. O importante era sentir que o macho puxando seus cabelos num rabo como se fossem as rédeas de um cavalo tinha autoridade, sabia dominar a fêmea - e fazê-la feliz. Alice entendeu com a pele o que era química entre os corpos. Mas antes de perder o controle de quatro, conheceu as delícias que Andrei sabia oferecer só com a boca.
Carinhosamente, ele pediu para ela se deitar de costas e fez uma massagem poderosa. Apertava pontos tensos, soltava os nós musculares, dava prazer a ela.
- Agora quero que você fique imóvel e finja que está dormindo - pediu.
Andrei se excitava chupando uma bela adormecida. O clímax era lamber a mulher sem ser notado. De olho nas curvas de Alice, começou a mexer no pau. Aproximou a boca das coxas firmes, deslizou por elas com os lábios, sentiu o cheiro afrodisíaco do sexo da morena. Com o pau duro, tocou a língua de leve na xoxota por trás. Subitamente, ela levantou o quadril, pedindo mais. Ele triscou a língua de novo e tirou. Fingindo sono profundo, ela se virou de lado e deixou as pernas entreabertas. Ele voltou a repousar a boca molhada em seus lábios vaginais e ficou estático. Parecia um peixinho beijando o vidro de um aquário. Em segundos, a xoxota de Alice começou a pulsar como um coração.
Daí os dois não precisavam fingir mais. Ele enfiou a cara nela e Alice gemeu alto na hora do gozo. Gemeu sem medo de julgamento, como gata no cio em cima do telhado. Com Andrei, sem medo da entrega, ela viu que o amor era magia. Então chupou aquele pau sem neura de parecer “tarada”. Chupou com vontade o tempo que quis. Bateu punheta olhando safada nos olhos dele. Livre, de vez em quando ainda se esfregava na coxa dele, com shape contornado, numa espécie de masturbação mútua. Fez bem gostoso até ele gozar.
- Hoje nossa transa foi “papai e mamãe” comparado com o que ainda vamos fazer. Vou te realizar na cama e na vida - ele prometeu, sabendo que cada corpo tem engenharia própria e que Alice, aquele mulherão, merecia sexo de alto nível: orgasmo com vontade de estar junto.
Totalmente satisfeitos, sentaram-se para jantar. Andrei retomou a conversa da frustração profissional dela. O engenheiro tinha um plano de navegação na cabeça.
- Aquela sua história de insatisfação no trabalho me fez pensar… Já que a administração não te preenche e que você ama antropologia, pensei num projeto de vida pra gente.
- Projeto? Pra gente?
- Vou resumir: que tal se, a cada ano, você fosse a nossa guia numa expedição a um Patrimônio Cultural da Unesco? Eu cuido da engenharia da viagem; você apresenta a cultura dos lugares que a gente explorar. Assim, minha paixão por viagens e a sua, pela antropologia, ganham lugar de destaque na nossa história.
Alice limpou os lábios no guardanapo maravilhada. Ele tinha razão. Ninguém nasce para sofrer. A imaginação e o cuidado de Andrei podiam transformar sua vida tediosa na empresa do pai, dissolver dores antigas, passar uma borracha no seu carma.
- Você tá me convidando pra explorar lugares novos ou casar? - Alice brincou, se servindo de queijo ralado.
- Falando em casamento, o roteiro pode ser romântico, por Roma e Veneza, se você quiser. Ou refinado, pela estética de Kyoto; de mistério, nas pirâmides do Egito; de aventura, nas savanas africanas…
- Você planejou tudo?
- Sou engenheiro. E tem mais uma coisa.
- Mais?
- Em cada lugar, a gente poderia deixar uma marca só nossa.
Na mesma noite, saboreando um tiramisu, começaram outra diversão com prazer quase sexual: traçar destinos incríveis. Andrei botou pimenta: em cada lugar - decidido por sorteio - realizariam um jogo erótico. Alice quis esboçar a ideia. Pegou uns papeizinhos brancos, escreveu os primeiros lugares que vieram à cabeça e o sorteio inaugural deu Turquia. Os sítios rupestres da Capadócia e regiões históricas de Istambul. Alice escolheu a fantasia “Toda Nudez Será Premiada”: os dois iriam passear de iate pela Riviera turca, explorar as ruínas romanas submersas de Simena, em Kekova, e mergulhar em praias desertas de mar azul turquesa completamente nus. Sem censura.
O segundo destino sorteado foi a Geleira de Aletsch, nos Alpes Suíços, uma das paisagens de neve mais deslumbrantes do mundo. O fetiche de Andrei se chamava “A Desconhecida”. Em contraponto com o gelo dos passeios diurnos, eles conheceriam o fogo noturno de um Kontakt Bar, os bares de hotéis de luxo especializados em entretenimento adulto. Como a prostituição na Suíça é legalizada, Alice topou o programa. Andrei queria escolher uma garota linda para uma noite a três. Seu desejo era se masturbar observando Alice beijar e se esfregar na desconhecida. Uma noite sem ciúmes ou limites.
O terceiro lugar eleito foi o Japão. Na viagem de exploração dos monumentos históricos de Kyoto, Alice queria ser “Puta por um Dia” - em versão luxuosa, cheia de classe, discreta. Os anos foram passando, o namoro virou noivado, depois casamento. A cada retorno das férias, Alice voltava menos submissa ao pai e com aquele brilho nos olhos de quem desfrutava do sexo não só como fonte de prazer, mas de poder feminino. Seu pai, mais velho e cansado no comando dos negócios, cobrava um neto - que não vinha.
Para celebrar 15 anos de união, Alice e Andrei trocaram o sorteio pela escolha de cenário a dedo: a Índia. Queriam ver de perto a mais icônica prova de amor do mundo, o Taj Mahal, mausoléu gigante de mármore branco com pedras preciosas incrustadas construído a pedido do rei Shah Jahan para guardar os restos mortais de sua esposa favorita. O casal viajaria 14 mil quilômetros para honrar seu próprio amor infinito diante do túmulo que mistura luxo, beleza e tristeza - e é considerado uma das sete maravilhas do mundo.
Em segredo, Andrei encomendou um hasli de ouro maciço mais robusto do que a peça que Alice havia ganhado do pai em sua formatura, com o qual iria presenteá-la nos jardins do palácio, ao redor do espelho d’água. Depois iriam jantar. Apreciador da podolatria, o fetiche de Andrei seria “Jogado Aos Seus Pés”. Alice foi convidada a excitar o marido com discrição máxima durante o jantar num restaurante estrelado. Seria a primeira fantasia do casal a ser realizada em público. Preparando-se para a viagem, ela escolheu esmalte perolado nas mãos e vermelho nos pés. Feliz, mostrou para Andrei a tornozeleira de ouro branco com diamantes que tinha comprado para apalpá-lo debaixo da mesa.
Dormiram abraçados na antevéspera do embarque. Por volta das 3h da manhã, o celular de Alice tocou.
- Preciso falar com você - dizia o mordomo da casa do pai dela.
- O que aconteceu? A essa hora só pode ser coisa ruim.
- Infelizmente.
O pai de Alice morreu de infarto. Foi enterrado na véspera da viagem do casal. Na volta do cemitério pra casa, Alice encolheu de tamanho. Chorava tanto pelos cantos da casa que caiu de joelhos no chão. “Então é assim, na sarjeta, que fica a filha quarentona ao perder o pai com quem travou mil batalhas, a quem amou tanto quanto odiou?”, ela pensava. Andrei a observava no fundo do poço - até ela perceber que não teria outro caminho, a não ser subir. De olhos inchados, inerte, fora do corpo, ela quis saber:
- E agora, o que a gente faz?
- Temos que escolher, Alice. Ou a gente segue no luto e fica em casa ou mantemos os planos e embarcamos amanhã.
- Entendi. Temos que escolher entre Eros e Thanatos - disse Alice olhando para as malas abertas em cima da cama.
Lidar com a morte talvez seja o maior aprendizado da vida. Ao concluir que a viagem poderia tornar seus momentos de tristeza menos dolorosos, Alice tomou a decisão. Andrei deduziu que ela tinha escolhido Eros - sabendo que Thanatos faz parte do caminho - quando a viu colocar na mala a tornozeleira de ouro branco.
FIM
ÓLEO SENSAÇÕES
Um óleo. Quatro sensações em camadas — tudo em uma só aplicação. Terpenos, Jambu Amazônico, canela e hortelã pra acender o que a rotina apagou e fazer o corpo lembrar como responder.
QUERO SENTIR